Voa

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Deu vontade de correr e te abraçar. Naqueles primeiros sábados sem você, eu quase mandei aquela mensagem arquivada “Foge comigo?”. Fiz preces baixinhas no travesseiro, pedindo um pouco mais de nós. Aquele se cuida do fim da conversa se infiltrou na minha mente, e eu só quis gritar, engolir essas palavras e dizer:  “Me cuida, por favor?” Eu atravessava a rua ao ver algum conhecido seu, não era nada, era só que saber de você quase me matava. Porque é assim, a presença de quem não quer estar presente sempre machuca mais. Eu via a tua vida das sombras, as vezes eu não conseguia conter, só rezava ao seu bem, bem estar, bem querer, bem e bem. Eu sempre pedia para que a pessoa que me secava pouco a pouco estivesse bem, viva e vivendo, acho que o amor acaba tendo esse desprendimento no final. Eu tentei não julgar tuas escolhas, mas conhecia teus gestos, os olhares e tudo que estava escrito apenas nas estrelinhas. Eu te lia em um rodapé minúsculo e nunca falhava. Eu sabia dos olhares. E sabia que por maior que fosse o meu querer, ele não condizia com o seu. E sabe, não havia mal nenhum nisso. Ninguém é obrigado a ficar não é? Mas sinto que tenho me desprendido. Acho que quase consegui te tirar de mim. Dos poros arrepiados da pele, dos pensamentos iniciais do meu dia. Te soltei como quem solta seu balão preferido. Te deixo ir. Te deixei ir. Assim voando pelo céu, enfeitando outros olhares. Ainda te quero bem. Esteja bem. Bem, solto e feliz. Por aqui eu me viro, e aquela tua falta já nem me afeta mais, não tanto, não como ontem e com certeza afetará ainda menos amanhã. Sejamos vida, como fomos, como lembramos.

Karoline Amorim

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Paz

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A paz te encontra. Não a procure. Não corra atrás dela, ela chegará até você. Assim, por conta própria, secando a tempestade de lágrimas e desatando todos os nós do coração. A vida se encarrega de unir os caminhos. Faz jus daquele “Não se afobe não que nada é pra já…”, sempre sábio esse Chico. Mas sabe, prestando bem a atenção, a paz esta sempre ao redor. Nos sorrisos sinceros que não sorrimos de volta. Nos pingos de chuva que nos irritam ao invés de lavar a alma. Nos dias de sol que chegam para aquecer o coração e a vida, mas irritados só desejamos as sombras. Esta nos conselhos que fariam a vida mais fácil se ouvidos. No querer ficar que ignoramos. Nas vontades que anulamos. No medo do anormal que a falta de coragem cria. Esta em querer sempre mais tendo tanto para isso. A paz esta em cada detalhe da vida que cansados, emburrados e nublados demais deixamos de perceber. Nas pequenas coisas, nesses tantos abraços, nos bom dias não desejados e não vividos, nos erros que vivemos encontrando em pinturas perfeitas, nas pedras e tropeços que nunca achamos merecedores. A paz está em cada um, em cada canto, em cada novo respirar e nova chance de encontra-la que recebemos a cada abrir de olhos. Esta em tudo que nos rodeia e que cegos de gratidão, não realmente enxergamos.

Karoline Amorim

Raso

Eu deveria saber. Queria prever. Foi tudo tão rápido. Você me ganhou em um abraço meio a lagrimas minhas sem motivo qualquer aparente. Mas havia um motivo, eu queria mais, você foi minha prece para continuar, só pude pensar baixinho, deixe que vingue, crie raiz, eu adubo certinho, há tanto amor e carinho. E você ficou, uma semana, um mês, nem importa, foi intenso, foi toda a verdade que eu procurava. Mas foi rápido, tudo que vêm rápido, vai rápido. Já dizia minha Avó. E você foi indo. Uma ligação não atendida aqui, um sumiço repentino lá. Verdades escondidas por detrás da falta de coragem. Seria tão mais fácil não permanecer. Eu disse desde o inicio, eu sinto tanto, eu sinto muito, sinto com tudo de mim. Então você se foi, para outros braços, para os braços do passado talvez. Mas foi. Quebrou a promessa, e jogou fora todas as juras de ser meu. E eu te fiz meu, é isso que cancerianos fazem não é? Sentem tudo, mergulham. E você como mais um coração raso demais, não acreditou quando eu lhe disse que mergulharia. E eu mergulhei, molhei os pés e a alma todinha, me fraturei, quebrei tudo de mim mais uma vez por essa mania de querer mergulhar em gente rasa demais.

Karoline Amorim

Um texto sobre saudade

Hoje sonhei com ele. Fazia tanto tempo, antes chamaríamos de conexão e em seguida ele diria que também tinha sonhado comigo. Houve muita mágoa um dia, houve raiva, desespero, arrependimento. Hoje há saudade. Ele foi o meu melhor amigo por tempo suficiente para isso. Gostaria de ter um número e ligar pra falar sobre a vida. A minha e a dele. Contar meus passos incertos depois daquela queda, e como fiquei perdida sem a presença dele ao meu redor. Ele me mostrava quem eu era, me salvava de mim. Dessa minha pressa sempre contida e dessas atitudes impensadas que sempre me rodeiam. E eu sabia acalmar a sua raiva e tirar ele daquela bolha de nós que ele queria viver. Eu mostrei o novo, novas músicas, novos jeitos, novas manias. Ele sempre a razão mostrava aquele tanto de pensamentos repensados, atitides calculadas, calma, paz. Ele foi muita paz para o meu ser. Ele me quebrou ao sair e ainda assim me ensinou a voar sozinha. Eu o dividi com as minhas dúvidas, mesmo assim ele me amou do início ao fim. Nossos passos incertos nos trouxeram até aqui. Nosso amor adolescente e fugas nos moldou quem somos e como nos relacionamos hoje. Ele marcou, eu marquei. Sabemos disso e seguimos, esse texto é sobre saudade e essa lacuna sempre aberta que ela deixa no caminho. Vivemos novos sonhos, traçamos novos rumos, mas a saudade vai e volta, em momentos contados ele me vêm ao pensamento, não com raiva, não com amor, talvez com afeto, gratidão e saudade, saudade para contar como prece baixinha os acontecimentos novos e sufocar uma falta sabe-se lá de quê. Mas essa é a saudade, sufoca o presente nos levando a um passado, esse que já passou, mas não foi de vez, nunca vai de vez.

Karoline Amorim

Um dia seremos.

Talvez não seja agora. Talvez seja em uma próxima, ou em outra, ou depois dessa outra. Talvez um dia seremos mais. Seremos o agora, sem precisar sufocar o sentimento bonito que só a gente entende. Seremos presença e não saudade de uma paz encontrada e perdida. Talvez um dia possamos fazer aquela viagem comentada a tanto tempo entre uma confissão e outra. Um dia quem sabe eu possa morar no teu abraço como sempre quis e nunca pude. Talvez um dia a gente sonhe e realize junto. Quem sabe um dia o destino concorde com a gente e nos deixe ser. Em uma vida qualquer poderemos ouvir qualquer música, sem evitar nenhuma por lembranças sufocadas. Talvez um dia deixemos de dar tanta volta atrás de algo que nem sabemos e nos contentemos um com o outro. Quem sabe em uma outra vida seremos duradouros, um mês, um ano, a vida todinha. Talvez seremos. Talvez a gente encontre explicação pra esse sentimento que nem a gente entende. Quem sabe, quem dirá? De tantas vidas, em uma qualquer talvez você goste de ficar e a vida nos permita ser.

Karoline Amorim

Ele chegou

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Ele chegou feito um vento de paz. Aqueles quentinhos e leves que passam depois da tempestade e deixam um rastro de gratidão. Calma pura. Alma lavada. Ele chegou mansinho, cheio de querer bem. Chegou calminho contando os passos e sabendo lidar com a minha rispidez. Chegou trazendo carinho e logo eu toda arisca, não soube recusar. Chegou me fazendo duvidar. Não poderia ser. Tanto clichê. Deve não ser. Mas chegou me fazendo sentir. E não é isso que está em falta hoje? Gente dessas que nos fazem sentir, transbordar, querer muito, pagar pra ver. Ele chegou feito promessa, feito prece, feito alma gêmea encontrando seu lugar. Chegou cheio de sorriso roubado e beijo na testa. Chegou me trazendo de volta. Pegou na minha mão feito anjo bom e mostrou tudo aquilo que eu era e deixei pelo caminho juntando tanta decepção. Ele chegou feito verão depois de um inverno intenso. Aqueceu o corpo, a alma, todo aquele querer que a desilusão me roubou. Ele chegou me salvando, deve ter alguma capa escondida. Me salvou de mim, daquela solidão que me levava abaixo, da falta de querer, da falta de me querer. Ele chegou. Ele ainda está aqui. Meu coração está aprendendo a sorrir em paz. Ele chegou, e eu não poderia fazer nada além de abrigar seu calor, me abrigar nesse amor, e ir. Ele chegou, e a minha prece de todas as noites é que ele goste de ficar, não quero procurar outro lar, quero é habitar nesse moço, com cheiro de para sempre e sorriso de esperança.

Karoline Amorim

Nasci Flor

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Nasci Flor. Colorida. Enfrentando das maiores tempestades até os mínimos dias de Sol. Nasci Flor. É, sempre enfeitar ou enfrentar. A vida de tanta gente, a primavera de cores, os invernos intensos. Nasci Flor, livre, única, frágil. Mas não poupei espinhos a aqueles que me roubaram pétalas e jardins. Nasci flor, perdendo a delicadeza com quem não deveria, bem querendo ter nascido pedra. Dura, fechada, cinza. Mas nasci Flor. E nesse jardim todo, alguns jardineiros só fizeram mal a mim, tolos, era só me cuidar. Alguns regaram demais, outros me deixaram secar, nenhum soube fazer o trabalho certo, acabaram com espinhos nas mãos. Ação e reação meus caros. Nasci Flor, mas queria mesmo era ter nascido borboleta. Voar até o céu, ser livre um instante do para sempre. Crescer lagarta, vencer solitária e amadurecer o suficiente para conhecer a imensidão do céu, sem ninguém, nenhuma pétala a perder ou jardim mal cuidado a viver. Apenas bater asas, enfeitar por ser, ser mensageira de Deus, ser liberdade e mais nada. Mas que pena, nasci flor.

Karoline Amorim

Beija-Flor

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Como um beija-flor, suas asas acompanham o ritmo do seu coração. Ela é movimento, é um passo a frente, sua intensidade condiz com o seu ser acelerado. Ela não nasceu pra esperar. É do pra ontem, suas paixões são efêmeras. Seu coração se acalma voando de flor em flor, guarda cada pouca essência para dar forma a ela mesma. Seus braços curtos tentam abraçar o mundo todinho. Ela gosta de viver assim, a flor da pele. Ela gosta de sentir. Experimentar. Nada pode saciar seu vicio pela vida. Seus olhos brilhantes enxergam essa beleza abstrata em cada pequena coisa. Ela nasceu para ser livre. Para fugir de qualquer gaiola e conhecer as árvores mais altas. Ela segue assim, beijando flores, saciando um pouco da sua vontade de viver tudo, vivendo um pouco de cada coisa. E quanta coisa, nada sacia a sede de vida que essa menina tem. O seu coração não tem dono, não tem lar, não abriga apenas alguns poucos e bons. Ela nasceu apaixonada, querendo a cada novo respirar, viver tudo aquilo que pode até o fim de tudo. Ela é liberdade. Entenda seu moço ela não pode parar.

Karoline Amorim

Pacifica

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Eu sei tá doendo. Teu corpo abriga tanta dor que parece que feriu todinho. As lembranças tiram o sono e aquele amor, aquele que deveria durar para sempre, te quebrou em milhares de pedaços, sobrando quase nada para continuar. Eu sei que dá vontade de fugir da vida, do corpo, da história. Sei que se esconder parece a melhor solução,  sei que nada faz esquecer. Sei das pessoas que dizem que vai passar, sendo que noite após noite não passa. Sei do sentimento de traição. Sei da decepção ao perceber que aquele alguém, é hoje, alguém que você não conhece. Sei das tentativas falhas de reparo. Sei da dor e do peso de mais uma desilusão. É assim sabe, a dor consome o corpo, a alma, qualquer pensamento feliz. É o fundo do poço. Parece mesmo que não vai acabar nunca. Parecem dias em vão. Parece dor infinita. Mas sabe, devo concordar com a dica universal: PASSA. Porém só passamos por algo, se atravessarmos por ele. Não importam as pedras, as dores, as dificuldades, o caminho se estende a sua frente e com o passar dos dias a gente aprende a respirar fundo e só ir. Ir enfrente, limpar os joelhos ralados, guardar bem o coração quebrado e ir. Aprende a levantar sem nenhuma mão para ajudar. Encontra na solidão a paz roubada. Não existe fórmula, não vai doer menos, vai ser enquanto precisar e depois disso a redenção chega. O aprendizado, o sorriso aberto de quem só chorou mas encontrou o caminho para ser feliz sem alguém. O prêmio maior de consolação, é aprender a lidar com uma dor causada por amor. É a paz do não sentir nada. É a anestesia que a vida dá, e que a gente sai sorrindo por aí, procurando um novo jeito de recomeçar.

Karoline Amorim

Depois de você.

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No começo ouve escuridão. Feito nuvens anunciando uma tempestade e a vida o nosso fim. Houve dor também, muita dor, dessas que você bebe pra passar, pra esquecer, pra melhorar, para o amanhã chegar logo. Houve desespero, uma falta contida, uma saudade que matava ao invés de ser matada. Houve orgulho. Houve decepção. Houve verdade. Assim como na alegria, sempre existe uma verdade bela e crua no sofrer. Houve a anestesia que a vida doa, e os dias passando e te levando cada vez mais longe da história e do coração. Houveram dias, e noites, e manhãs, e madrugadas. Houve vida e houve a falta de vontade dela. E acima de tudo, olhos que enxergaram coisas outrora não vistas.

De repente não mais eu, não mais você. De repente outra boca. De repente outro abraço. De repente uma saudade de um passado que não se encaixava no futuro, mas continuava lá, querendo entrar, querendo espaço. De repente um ciclo se fechou. A vida girando e rodopiando como faz de melhor, ensinou que não mais você. Mostrou o egoísmo, a saudade de alguém que existiu no passado e somente lá.

De repente, tão rápido quanto cheguei  quis partir. Olhei você e não vi ninguém considerável. Engoli aquele seu “Conversamos por aí” segurei meu coração e soltei pra vida, quase com alivio, quase como oração, aquilo que nunca imaginei: Não mais. Três anos depois, três anos mais forte, três anos mais sábia, no mesmo dia em que cheguei a vida me tirou de você, eu deixei tudo que você me trouxe e saí, você nunca soube, mas foi ali que você me perdeu. E como irônica que a vida é, foi ali que sem querer me encontrei. Encontrei o amor por mim, encontrei as minhas vontades, encontrei o orgulho que sempre deixei de lado por você. Encontrei muito mais vida que todo esse tempo nublado que você deixou. Sou grata, desejo apenas reciprocidade, a vida fará o seu trabalho a partir dela.

Karoline Amorim